

Projetar um futuro sustentável a partir das variáveis presentes é o papel dos futuristas. São essas projeções que ajudam inclusive a entender o efeito do contexto atual e assim, perceber onde ele pode desembocar. A professora e pesquisadora Rosa Alegria assumiu essa missão, depois de 20 anos de vida corporativa. Graduada em Letras com mestrado em Estudo do Futuro pela Universidade de Houston (EUA), uma das três instituições no mundo que se dedicam ao assunto, Rosa é diretora do Núcleo de Estudo do Futuro da PUC de São Paulo e representante no Brasil do projeto Millenium, rede mundial de futuristas, que estuda os desafios globais.
Rosa explica que o homem vive atualmente a era da incerteza, de mudanças rápidas e cons-tantes. E essa realidade assusta. Porém, é preciso absorver as transformações para chegar onde se quer. Em primeiro lugar, reconhecendo uma leitura integrada, sistêmica do planeta, onde as empresas são um elo da corrente.“Vivemos na época da incerteza, decorrente da complexidade da nossa realidade. Se quiser entender as mudanças, não se pode ter uma leitura racional. É preciso entender a correlação das coisas”, avisa.
Segundo ela, as empresas precisam olhar além do muro, integrando a dimensão dos seres humanos que nela trabalham, olhando-o não apenas como o trabalhador, mas sim como alguém que tem vida pessoal, estuda e se diverte. Muitas vêm adotando um discurso social, porém, de pouca eficácia na ação. “Elas ainda trabalham alguns aspectos colocando seus ideais nos quadros, nas paredes, mas é difícil passar do verbo para a ação. O indicador do futuro é o de coerência (entre o que se fala e o que se faz). Essa é a próxima métrica.” Confira a entrevista exclusiva para a Canal Rh em Revista a seguir.
Canal Rh: O que um futurista tem a oferecer ao mundo corporativo?
Rosa Alegria: Direciono nas empresas a prática de pensar o futuro, numa jornada evolutiva. Futurismo é uma disciplina que envolve método e observação, que procura entender as mudanças no mundo, e ensinar as organizações a se prepararem para elas. Procuramos entender os padrões das mudanças, como são assimiladas e como é científico e sistêmico envolvermos a sociedade nisso. Trabalhamos a visão panorâmica nas pessoas.
Canal Rh: Mas há sempre resistência a mudanças, em qualquer tempo....
Rosa: As pessoas pensam as mudanças como algo que ameaça, um desconforto. Eu procuro mostrar como mudanças podem significar oportunidades, para que sejam entendidas, aproveitadas.
Até pouco tempo, as verdades eram certezas e mudanças eram estranhadas. Mas vivemos na época da incerteza, decorrente da complexidade da nossa realidade. Se quiser entender as mu-danças, não se pode ter uma leitura racional. É preciso entender a correlação das coisas. A falta de água pode afetar toda a economia mundial, o colapso do sistema financeiro implodiria tudo, ou seja, todos os sistemas estão interligados. É preciso adotar um novo olhar que não seja fragmentado, pois tudo está conectado. Vivemos uma fase de estresse. Ainda estamos acostumados a pensar de forma linear, não sistêmica.
Canal Rh: Como aplicar isso numa empresa? Elas estão acompanhando as mudanças?
Rosa: Não, não estão. Empresas são as pessoas, mas elas se colocam como sistemas isolados da realidade. Essa visão complexa também precisa ser vivenciada nas empresas, olhar os seres humanos e suas várias dimensões. Dimensão de relacionamento com amigos, a dimensão do estudo, do lazer, do prazer. As empresas têm dificuldade de “ler” esse ser humano. Eles são os que trabalham, não os que amam, estudam, se divertem. É um erro muito grande, e isso cria uma sensação angustiante para a companhia. O funcionário é visto e aceito apenas como trabalhador, não como alguém com relacionamento, dúvidas.
Canal Rh: Essa seria uma das explicações porque algumas empresas estão indo atrás de temas como espiritualidade?
Rosa: É o sentido da busca. Esta é a era da informação, e temos muitas disponíveis, o que cria um vácuo espiritual muito grande. Não paramos para nos preocupar com o assunto, para exercitar nossa espiritualidade. Estamos fechados na relação com objetos, e para saber quem eu sou, para quem eu sou. E as empresas têm uma oportunidade enorme de abordar o assunto, e ganhar com isso. Ver com o funcionário por que ele está lá, qual a relação dele com a missão da empresa e da sua vida? Para não verem as pessoas como elemento de produtividade. É preciso reinventar as métricas empresariais, que possam qualificar os relacionamentos humanos. Hoje, os resultados, as metas, são fruto de métricas racionais. Por que não adotar um sistema de valores, de avaliação pelo que se é e não pelo que fazem? Quem é solidário, altruísta, pode ser valorizado.
Canal Rh: Mas como dizer isso a grandes empresas que estão cotadas em bolsa, que precisam dar satisfação a acionistas?
Rosa: Pessoas mais felizes produzem melhor. Pessoas mais felizes são mais criativas. Hoje há uma crise profunda de talentos. A evasão de cérebros tem sido enorme. Os jovens se perguntam se eles querem ir para uma empresa de verdade. Querem montar negócios. Então, algo está errado. É preciso avaliar a profundidade do ser humano de modo estratégico para que a empresa conviva com esse quadro de mudança. Criar um significado dentro da corporação. Há quem diga “não somos assistencialistas”. Isso é miopia. Cuidar de pessoas não é assistencialismo, é estratégico. Tratar bem, entender a profundidade e aproveitá-la traz benefícios enormes. Os rankings de melhores empresas para se trabalhar mostram que as companhias que ali são citadas também são as mais lucrativas. Não é coincidência.
Canal Rh: As empresas ainda não entenderam esse movimento?
Rosa: Elas ainda trabalham alguns aspectos colocando seus ideais nos quadros, nas paredes, mas é difícil passar do verbo para a ação. Trator de mudança é muito grande. Colocar shiatsu, cristal na empresa, não. O indicador do futuro é o de coerência. Essa é a próxima métrica.
Canal Rh: A tecnologia trouxe uma nova relação com o tempo, que agora ganhou a dimensão do “tempo real”. Sabemos as coisas quase no momento em que elas acontecem. Qual o efeito sobre a sociedade?
Rosa: Do Iluminismo para cá, podemos dizer que o homem dominava o tempo. Mas agora, a informação em tempo real mostra que não dominamos o tempo. E nós mesmos estamos ficando mais complexos e evoluídos. Dentre dessa própria evolução, somos consumidores mais exigentes, mais cons-cientes. Isso nos traz incerteza. Porque não nos satisfazemos com paradigmas antigos. A mudança agora é rápida, é complexidade natural da condição de ser humano atualmente.
Canal Rh: E quanto mais informação disponível, mais pressão por compreender tudo. Qual o efeito disso?
Rosa: A base de dados construída no mundo vai se comparar à base de informações do cérebro. Hoje temos o infoestresse, que é um abuso de excesso de informações. Muitas informações também podem complicar a formação. É importante que as empresas não inundem as mentes, mas irriguem. É um bem intangível. E a terceira onda (de transformações econômicas e sociais da história humana) é do intangível (a primeira foi agrária, a segunda, industrial), de valorização do que não é material.
Canal Rh: Como evitar esse infoestresse?
Rosa: É preciso um filtro, administrar as informações disponíveis. Para não pecar pelo excesso. Primeiro identificando sua conexão com o campo de informação, de como ela ajuda a ver nossa rea-lidade. É um filtro próprio que cada um deve adotar. No momento, entretanto, não há capacidade imediata de avaliar o valor da informação.
Canal Rh: Quais são as profissões do futuro?
Rosa: A criatividade será sempre o motor do nosso mundo. As profissões que exercitem a criatividade. A próxima revolução é a da sustentabilidade. Os profissionais que coloquem esse olhar integrado sobre as coisas serão valorizados. Acho inevitável que a profissão de futuro seja desassocia-da da realidade atual. Liberdade será valor imperioso nessa nova dimensão. Tenha domínio absoluto da sua vida e do seu espaço. Vamos recuperar o domínio sobre decisões e sobre nossas vidas. Para sermos pessoas integrais e integradas. A profissão do futuro não aceita o atual confinamento. Vamos trabalhar nas empresas por escolha consciente. Não somos só seres econômicos, somos sociais e políticos.
Canal Rh: Quais empresas vão sobreviver?
Rosa: As pessoas estão infelizes nas organizações. Portanto, elas precisam se reinventar ou não vão durar. Ficarão aquelas que fizeram as mudanças, aprendendo com elas.



















